quinta-feira, 8 de abril de 2010

Fragmento encontrado no diário de um homem que morreu sozinho e triste

Não sei... mas ultimamente o mundo tem contado piadas sobre minha pessoa que não consigo rir com ele. Por vezes, pessoas estúpidas e sem propósito, belas, sim, belas como fadas dançando sobre um lago espelhado sobre a primeira luz da manhã, mas ainda sim estúpidas e sem propósito, me ofendem gratuitamente, cuspindo rancor pelo amor que lhes foi negado. Não tenho nada contra ofensas, por favor, não me entendam mal, devo confessar que, como todo humano estúpido e sem propósito, também sinto uma lubricidade na ofensa e na maldade, contudo, talvez até por procurar exatamente nessas pequenas travessuras prazeres que muitos tentam negar que existem em si mesmos, também prezo certa elegância no inevitável mal que sinto em mim. Talvez existam várias maneiras de constranger o próximo, umas fáceis, já outras exigem certa dose de elegância e lirismo. Dizer que este é gordo, aquela é feia, ou aquele outro não possui boa dicção são ofensas banais e de fácil execução, não demonstram nada além dos defeitos que talvez aquele que insulta acha que possui em sua própria alma, como quando um coração pleno de rancor e mágoa, não vislumbrando para si em seu desespero silencioso a serenidade que parece emanar do rosto do próximo, tenta perturbar a aparente paz que reina nos olhos que não olham para os seus, para intimamente fazer com que todos compartilhem seu plácido desespero. Mas a ofensa atrevida, cretina, quase sexual não se faz assim tão facilmente. É quase uma atenção cuidadosa, que arranca do outro um prazer no seu próprio ato de ser cretino e maldoso. Essas outras ofensas, as fáceis, quase sempre geram culpa por parte do agressor. Ele duvida de suas palavras, sabe que perdeu a compostura e a gratuidade de sua ação é como o criminoso que vê o crime e a reprovação em todos os olhos que se voltam para ele, mesmo que ninguém tenha sido testemunha de seu ato. Vergonha, culpa, arrependimento, e todos os sentimentos que O Livro do senhor nos ensinou sentir passam pelo coração dessa alma cada vez mais presa aos grilhões da religião e à fé no onipotente criador dos homens e das coisas. Mas as outras ofensas, aquelas que apenas atendem ao chamado íntimo do homem ser o que é, arrancando pequenos prazeres de pequenas maldades, sim, essa nos provoca outros sentimentos, que, devo dizer, particularmente me atraem mais do que a culpa e o arrependimento. Devemos ofender apenas àqueles que nos inspirem algum sentimento, e, ao ofender, devemos ser cuidados e, até, devo dizer, carinhosos... sim, é como um carinho, uma atenção. Afinal, buscamos o prazer apenas naqueles que nos inspire a vontade de realizar o prazer neles. Ao resto, nem mesmo quero desprezar. Até o desprezo pode ser atencioso.

5 comentários:

Eduardo Ferreira disse...

do caralho.

e duvido que alguém tão sincero morra solitário, mesmo que essa sinceridade esteja em páginas amareladas.

carrasco disse...

No espírito do texto: Gabriel, esse negócio de desenhar (e ainda mais quadrinhos, deus me livre) já deu o que tinha que dar meu irmão. Olhe os exemplos ao seu redor e volte a ser um homem das letras. Se bem que isso também não é nada garantido... enfim, agrade seu chefe de repartição e descole outra função ae, nesse sentido é mais produtivo puxar saco com cartinhas bem escritas do que com desenhos (!?) elogiosos. Para referências consulte Fagundes, do velho mestre.

mombasca disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
mombasca disse...

Barahona, deixar de escrever e voltar a desenhar foi a melhor decisão que eu já tomei na minha vida. hehehe relaxa, vai dar tudo certo (e está dando). Afinal, dinheiro não é tudo... rs. coisas grandes vem ai.

deixo as letras para os que conseguem engrandecer melhor a casta dos que escritores. deixo isso para os meus irmãos.

Carolina Barmell disse...

.continue a desenhar e escrever eternamente... é terapia, diversão e prática saudável para seu delicado ser.

.só.

;)